Em dificuldade, Venezuela e Equador apelam à China

Com suas economias ameaçadas pela queda nos preços do petróleo, os presidentes de Venezuela e Equador decidiram buscar socorro chinês. Nicolás Maduro e Rafael Correa reuniram-se ontem, separadamente, com o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, e saíram anunciando investimentos, empréstimos e financiamentos chineses de cerca de US$ 27,5 bilhões para seus países. Maduro disse ter recebido de Xi o compromisso de US$ 20 bilhões para investimentos em projetos de infraestrutura, combustíveis e tecnologia, que incluiriam uma fábrica de telefones celulares em seu país, voltada também à exportação. Ele não deu mais detalhes. A China é o maior credor venezuelano e nos últimos cinco anos já emprestou mais de US$ 40 bilhões ao país, em troca de petróleo. Já o Equador anunciou ter obtido créditos de US$ 7,5 bilhões dos chineses, para projetos de infraestrutura, mobilidade, construção de escolas e irrigação. O maior desses créditos, de US$ 5,3 bilhões junto ao banco chinês de exportação e importação, será pago em 30 anos a uma taxa anual de 2%. O petróleo teve seus preços reduzidos à metade nos últimos meses, com impactos diretos para ambos os países. Após um longo período negociado acima de US$ 100, o barril do Brent para entrega em fevereiro fechou ontem a US$ 51,53 na Bolsa de Londres. A commodity responde por cerca de 96% das exportações venezuelanas e 50% das equatorianas. Graças às receitas geradas durante o boom petroleiro da última década, ambos os países conseguiram promover avanços sociais, o que deu sustentação aos governos esquerdistas de Hugo Chávez e seu sucessor, Maduro, na Venezuela, e a Correa no Equador. A atual queda é péssima para os países petroleiros, com contornos trágicos para a desajustada economia da Venezuela. Quando esse movimento começou, em meados de 2014, o país já convivia com uma inflação anual acima de 63%, além de escassez de produtos básicos como alimentos e medicamentos. Um câmbio artificialmente valorizado, para baratear as importações, vem agravando ainda mais o problema, dizem analistas. A moeda americana, cotada à taxa de 6,30 bolívares, disparou no mercado negro, chegando a 178 bolívares. Com a "demanda infinita" pelo barato dólar oficial, importadores privados acumularam uma dívida estimada em cerca de U$ 15 bilhões com fornecedores no exterior - o país importa cerca de 70% do que consome. Analistas vêm cada vez mais dando como certo um default nos títulos da dívida venezuelana neste ano, algo já cogitado para 2014, mas que não se concretizou. Com o país em crise, o governo parou de publicar alguns índices econômicos. Mas as estimativas feitas pelo mercado são sombrias. A Capital Economics, por exemplo, calcula que o PIB (Produto Interno Bruto) tenha se contraído 3,5% em 2014. E revisou sua estimativa de uma nova contração para este ano de 1,5% para 5%. A inflação, cujo último dado oficial é de agosto, deve chegar a 91% neste ano, segundo a consultoria. Outros analistas, porém, locais já preveem uma inflação de três dígitos para 2015. Maduro prometeu no final do ano passado um muito aguardado pacote para ajustar a economia, que incluiria mudanças no confuso sistema de controle cambial no país, mas até o momento não fez nenhum anúncio concreto. No caso do Equador, a Capital Economics cortou sua estimativa para o PIB em 2014 de uma alta de 2,5% para zero. Com sua principal commodity de exportação em baixa, o déficit em conta corrente (resultado de todas as transações com o resto do mundo) deve subir de 1,5% do PIB em 2014 a 8% neste ano, "se tudo continuar igual e os preços do petróleo não oscilarem". Já o déficit fiscal, no mesmo cenário, deve dobrar para 10% do PIB. Um agravante é que, com a economia dolarizada, o Equador não pode desvalorizar o câmbio para ajustar suas contas. Assim, o governo tem sido obrigado a recorrer a um amplo corte de gastos. Entre outras medidas, Correa já cortou US$ 1,4 bilhão do Orçamento e revogou um aumento de 5% previsto para os servidores públicos. "Diante disso, o anúncio de que o governo conseguiu financiamentos de US$ 7,5 bilhões da China é animador", disse a Capital Economics. "Mas, no melhor cenário, isso cobrirá apenas cerca de três quartos do rombo esperado nas finanças públicas neste ano."  

Valor Econômico - Fabio Murakawa 12/01/2015

Com suas economias ameaçadas pela queda nos preços do petróleo, os presidentes de Venezuela e Equador decidiram buscar socorro chinês. Nicolás Maduro e Rafael Correa reuniram-se ontem, separadamente, com o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, e saíram anunciando investimentos, empréstimos e financiamentos chineses de cerca de US$ 27,5 bilhões para seus países.

Maduro disse ter recebido de Xi o compromisso de US$ 20 bilhões para investimentos em projetos de infraestrutura, combustíveis e tecnologia, que incluiriam uma fábrica de telefones celulares em seu país, voltada também à exportação. Ele não deu mais detalhes. A China é o maior credor venezuelano e nos últimos cinco anos já emprestou mais de US$ 40 bilhões ao país, em troca de petróleo.

Já o Equador anunciou ter obtido créditos de US$ 7,5 bilhões dos chineses, para projetos de infraestrutura, mobilidade, construção de escolas e irrigação. O maior desses créditos, de US$ 5,3 bilhões junto ao banco chinês de exportação e importação, será pago em 30 anos a uma taxa anual de 2%.

O petróleo teve seus preços reduzidos à metade nos últimos meses, com impactos diretos para ambos os países. Após um longo período negociado acima de US$ 100, o barril do Brent para entrega em fevereiro fechou ontem a US$ 51,53 na Bolsa de Londres.

A commodity responde por cerca de 96% das exportações venezuelanas e 50% das equatorianas. Graças às receitas geradas durante o boom petroleiro da última década, ambos os países conseguiram promover avanços sociais, o que deu sustentação aos governos esquerdistas de Hugo Chávez e seu sucessor, Maduro, na Venezuela, e a Correa no Equador.

A atual queda é péssima para os países petroleiros, com contornos trágicos para a desajustada economia da Venezuela. Quando esse movimento começou, em meados de 2014, o país já convivia com uma inflação anual acima de 63%, além de escassez de produtos básicos como alimentos e medicamentos. Um câmbio artificialmente valorizado, para baratear as importações, vem agravando ainda mais o problema, dizem analistas.

A moeda americana, cotada à taxa de 6,30 bolívares, disparou no mercado negro, chegando a 178 bolívares. Com a "demanda infinita" pelo barato dólar oficial, importadores privados acumularam uma dívida estimada em cerca de U$ 15 bilhões com fornecedores no exterior - o país importa cerca de 70% do que consome.

Analistas vêm cada vez mais dando como certo um default nos títulos da dívida venezuelana neste ano, algo já cogitado para 2014, mas que não se concretizou.

Com o país em crise, o governo parou de publicar alguns índices econômicos. Mas as estimativas feitas pelo mercado são sombrias. A Capital Economics, por exemplo, calcula que o PIB (Produto Interno Bruto) tenha se contraído 3,5% em 2014. E revisou sua estimativa de uma nova contração para este ano de 1,5% para 5%. A inflação, cujo último dado oficial é de agosto, deve chegar a 91% neste ano, segundo a consultoria. Outros analistas, porém, locais já preveem uma inflação de três dígitos para 2015.

Maduro prometeu no final do ano passado um muito aguardado pacote para ajustar a economia, que incluiria mudanças no confuso sistema de controle cambial no país, mas até o momento não fez nenhum anúncio concreto.

No caso do Equador, a Capital Economics cortou sua estimativa para o PIB em 2014 de uma alta de 2,5% para zero. Com sua principal commodity de exportação em baixa, o déficit em conta corrente (resultado de todas as transações com o resto do mundo) deve subir de 1,5% do PIB em 2014 a 8% neste ano, "se tudo continuar igual e os preços do petróleo não oscilarem". Já o déficit fiscal, no mesmo cenário, deve dobrar para 10% do PIB.

Um agravante é que, com a economia dolarizada, o Equador não pode desvalorizar o câmbio para ajustar suas contas. Assim, o governo tem sido obrigado a recorrer a um amplo corte de gastos. Entre outras medidas, Correa já cortou US$ 1,4 bilhão do Orçamento e revogou um aumento de 5% previsto para os servidores públicos.

"Diante disso, o anúncio de que o governo conseguiu financiamentos de US$ 7,5 bilhões da China é animador", disse a Capital Economics. "Mas, no melhor cenário, isso cobrirá apenas cerca de três quartos do rombo esperado nas finanças públicas neste ano."
 

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